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sexta-feira, 14 de março de 2014

O SOMBRA



Presença sem sombra.

Saiu como sempre. Silencioso, fugidio, sem uma saudação ou sequer uma despedida. Dissimulado como uma serpente. Dissimulado como todos os cínicos. É sempre tudo suspeito e duvidoso a respeito dos seus movimentos ligeiros e comportamentos esquivos. Não é um enigma, é uma fraude ambulante.

Nunca trocando olhares com ninguém. Fala para baixo, como se as pedras o escutassem. Quase em surdina. Um homem sem glória, um homem sem história. Um homem que se realiza no não compromisso. Um cobarde.

Voga no seu minúsculo mundo de referências, pré-estabelecidas pelos padrões que ouviu duma educação tacanha e submissa, onde se refugia de qualquer empenho ou postura de carácter. Foge de desafios e evita frontalidade, como um animal protegido pela carapaça dura e impenetrável. Subjugação é o seu modo de esperar o momento de fuga.

Os movimentos são silenciosos e esquivos, como uma sombra pulando de sombra em sombra.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

PIPA




Os gritos... os guinchos, as correrias...

O vaivém nervoso, febril... o entusiasmo da disputa, da tentativa de... tentativa?!... apenas a alegria.

O fio que se desenrola rápido da lata e o papagaio subindo alto, com a sua cauda trémula, reluzindo contra o azul celeste. O colorido garrido, geométrico, estalando como um berro no monocromático pálido céu da tarde ensolarada.

Enjaulado, sonho-me correndo junto com essas crianças. Sou a vida pulsando alegre naqueles membros franzinos e morenos. Agarrado às grades, eu definho enquanto voo... naquele papagaio que volteia no fundo da alma, estampado no céu sem fim.

Chinelos sacudidos com desleixo, para não atrapalhar a corrida. Mais tarde serão recolhidos desatentamente. Pés descalços voando sobre a terra, lama e água, perseguindo a queda errática... pulos, saltos, arranques e travadas súbitas.

Escalar muros, trepar árvores, tudo em alvoroço e excitação... na recolha do troféu! Cabeças erguidas. Olhares esgazeados fitando alto! Alto... Além...